terça-feira, 10 de junho de 2008

Retroceder nunca, render-se jamais


O Terminator virou Governator. Sly ressuscitou Rocky e Rambotox. Mas... e o Van Damme? Ícone do cine-porrada dos 80/90, o grande dragão branco tomou na cabeça. Longe do apogeu de “Kickboxer” (1989), “Garantia de Morte” (90) e “Soldado Universal” (92), Jean-Claude Van Damme está desempregado, perdeu na Justiça a guarda da filha, cheirou seus milhões e não tem mais um centavo no banco. De volta a Bruxelas, o carateca belga se enfia em um assalto a uma agência do correio.

Com grandes doses de realidade e algumas pitadas de ficção, esse é o plot de “J.C.V.D.”, sem dúvida o melhor filme da carreira do moço. Ok, eu sei, isso não é muito difícil. Mas Van Damme caiu na real, percebeu que seu tempo passou e aceitou estrelar e co-produzir essa comédia em que esculhamba a si mesmo, um projeto do jovem diretor Mabrouk El Mechri.

A primeira cena dá o tom da comédia. Como numa daquelas intermináveis partidas de “Double Dragon” , Van Damme arrebenta uns 50 inimigos em seu caminho para resgatar a jovem donzela, até que o surge o vilão final, o cenário cai, e o diretor grita: “Corta!”. E o nosso herói esbaforido reclama com o cineasta chinês: “Assim não dá. Eu tenho 47 anos. Não consigo mais fazer tudo em um único plano-seqüência”.

Salvo alguns flertes com a pieguice e um final meio sem pé nem cabeça, “J.C.V.D.” funciona bem como auto-paródia, tem boas piadas e um monólogo sensacional, em que Van Damme enfrenta a câmera e fala da vida de forma tão sincera que se torna irônica.

Em entrevista ao “Libération” por conta do lançamento do filme na França, o ator contou que a cena, de nove minutos, foi feita em uma tomada só, sem texto prévio, no improviso. “Mabrouk me pediu para abrir meu coração. Ele queria um plano-seqüência para que a palavra viesse melhor e para que não o acusassem de ter manipulado qualquer coisa de mim, de ter cortado minhas supostas bobagens.”

A entrevista no “Libé” é boa e dá uma idéia clara de quem é esse Van Damme que deve chegar aos cinemas brasileiros no segundo semestre. A seguir uma compilação dos trechos mais divertidos. E, no pé do post, o trailer do longa.

O convite para fazer “J.C.V.D.” - “Tinha perdido a confiança no cinema. Imagine um campeão. Tyson. Ele sobe no ringue. É nocauteado. Volta a treinar e novo nocaute. E mais um nocaute. Nessa hora, ele pensa: ‘Perdi tudo’. Naquele momento, quando a [produtora francesa] Gaumont me mostrou ‘Virgil’, o primeiro filme de Mabrouk, pedi desculpas e fui saindo. Por que vocês me procuraram? Eu estou acabado. Dêem Daniel Auteuil ou Gerard Depardieu a esse garoto, não Van Damme. Esse garoto merece mais que isso.”

Os diretores chineses que levou a Hollywood - “John Woo, Tsui Hark, Ringo Lam. Não se pode dizer que eles tenham me agradecido, né? Esse trabalho que Mabrouk fez por mim, chamo isso de uma flor: finalmente, um roteiro escrito, de atuação. Era isso o que eu esperava da parte deles, dos mestres de Hong Kong. E eles sistematicamente deram tudo a outros.”

O contato com os fãs hoje - “O que mais me dói é quando as pessoas me perguntam na rua: ‘Quando você vai fazer um filme?’. Mas eu faço filmes! É que eles não saem mais nas salas. São lançados diretamente em DVD.”

O pó - “Você pára de contar os gramas quando realmente começa com a cocaína. Posso dizer que, em termos de dose, era tamanho Van Damme. Van Damage... meu velho sobrenome. Ou ainda Jean-Claude Vingt Grammes... [risos].”


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