terça-feira, 10 de junho de 2008

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto




Lumet em melodrama trágico

Por Júlio Bezerra

Sidney Lumet fez alguns dos dramas (urbanos e de tribunal) mais intensos do cinema americano, como “Serpico” (1973) e “Um Dia de Cão” (1975), “Príncipe da Cidade”, e “O Veredito” (1983), mas sua cinematografia é igualmente marcada por momentos de mediocridade.

Mais recentemente, Lumet andava esquecido e desprestigiado. Em “Find Me Guilty” (2006), ele já voltava a chamar atenção com um trabalho recheado de inteligentes subversões. Mas este mais novo “Antes que o Diabo saiba que você está morto”, mais do que um retorno à forma, é uma espécie de ressurreição: um melodrama violento e trágico, inventivo nos movimentos, preciso nos planos, e elegante nos enquadramentos.
Em “Antes que o Diabo saiba que você está morto”, somos expostos a uma família em ruínas. Andy (Philip Seymour Hoffman) é um viciado em drogas cuja carreira de executivo está desmoronando. Para se livrar da falência, convence o irmão Hank (Ethan Hawke), também endividado e desajustado, a assaltar a joalheria dos pais. O plano parecia fácil, mas, por um acaso, a mãe (Rosemary Harris) deles aparece, e acaba sendo morta acidentalmente. O pai (Albert Finney) de Andy e Hank jura vingança, sem saber que está à caça de seus próprios filhos. Agora os dois irmãos terão de lidar com as repercussões do seu trágico plano.

Depois de um começo em tom idílico, entramos direto na trama e o filme já se esboça como a história de um desastre. Dois irmãos (Hoffman e Hawke em grandes interpretações) em queda livre financeira e moral partem para um golpe familiar. Ao contrário de “Find me Guilty”, em que Lumet parecia subverter estes preceitos, “Antes que o diabo” retoma a grande questão do cinema do diretor americano: o confronto entre os dilemas morais e os personagens que se debatem para ficarem em paz com suas consciências. Neste sentido, o contundente roteiro do estreante Kelly Masterson serve muito bem ao cinema de Lumet, permitindo ao cineasta um exercício de incrível simplicidade.

A narrativa começa a ir e vir no tempo, mas não se trata de uma “sacada” de roteiro ou um maneirismo de cinema contemporâneo. Lumet parece narrar em camadas, em sketches. Em cada uma delas, temos pequenas aulas de concisão dramática. Aos poucos, esses pedaços vão se somando. O espectador poderá assistir a determinadas cenas em diferentes ângulos, contextos e pontos de vista. O drama se multiplica. Curiosamente, o cineasta se disse em algumas ocasiões fascinado pelo digital. Filmado em HD, “Antes que o diabo” transpira esse fascínio. Além da elegância formal, o longa demonstra uma enorme vitalidade no trabalho da câmera, algo talvez novo para o cinema de Lumet.

Nos embates entre os personagens e seus dilemas morais, “Antes que o diabo” evolui como um filme sobre o descontrole. O longa é pontuado por cenas “descontroladas”, em que os protagonistas não suportam o peso de seus dilemas. Em determinada seqüência, o personagem de Hawke entra em desespero depois que o assalto dá errado. Em outra bela cena “descontrolada”, Andy cai em choro após uma briga com o pai. Nesses momentos, o filme demonstra um apaixonado entendimento da tragédia humana. Lumet fez um longa pesado.

Trata-se certamente de um filme extremamente desagradável. Certamente, um dos melhores trabalhos de Lumet.


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